quarta-feira, 18 de março de 2015

DEMOCRACIAS, PODERES BURGUESES

 Seguindo um raciocínio da filosofia neoliberal, o mundo está um caos, não porque o sistema, em si, seja deficiente, senão porque as pessoas são más. Suas ações pessoais não são coerentes com os princípios da liberdade, da subjetividade, da competição perfeita, da laboriosidade e das éticas  de cada ser humano, que somente se realiza, eticamente, quando mostra sua identidade pessoal no foro da intimidade e na vida profissional transparente.
A liberdade e o direito à iniciativa individual, na procura do bem estar pessoal e do grupo no poder, justifica qualquer ação, ainda que perversa, como a guerra, a exploração, o desemprego, a massificação, a fome, que nunca na história passada apareceu de maneira tão violenta e universal. O fim do lucro no mercado justifica qualquer meio.[1]
Tudo justifica a salvação das liberdades humanas, sobretudo dos que estão no poder. O atual regime democrático de governo dos estados pode ser o modelo dos grupos instalados nas esferas do poder, sustentadas pelo sistema capitalista de produção e de mercado. Porém, ele não revela a face de uma democracia de oportunidades econômicas, ainda que, ideologicamente, assim o professem e divulguem ostensivamente, como vemos pelos informativos da mídia mercenária.
  A nova onda de conservadorismo se alimenta dos princípios liberais que contribuíram para consolidar e justificar as posições conquistadas pela classe em ascensão - a burguesia - no processo de consolidação do grande capitalismo e imperialismo, concretizado nas revoluções inglesa, francesa e no processo da independência norte-americana. Concretizou-se, assim, a inspiração e superação de uma grande parcela do povo do ocidente, que vinha lutando para isso desde as comunas francesas e das organizações corporativistas do renascimento, na alta Idade  Média (ELIAS,1993).[2]
Escrever sobre a democracia dos partidos políticos no final do século XX ( XXI) dá idêntico constrangimento ao que daria escrever sobre monarquia no final do século XVIII, na França. O cientista político e atual presidente do Brasil( FHC) reconhece, em seu discurso de despedida do Senado, que “a democracia pode  ser o marasmo de uma democracia meramente formal, esvaziada de conteúdo econômico e social pelas pragas do elitismo, do fisiologismo e do corporativismo”. E na assinatura do prêmio Direitos Humanos, solenemente divulgado nas comemorações do dia da Independência, 1995, nos jardins do Palácio da Alvorada, reafirma que “a verdadeira democracia é a prática dos direitos humanos para todos, incluindo os pobres” (CARDOSO,1995).
  A apreensão da dúvida que paira sobre o valor da democracia está em todos os cérebros privilegiados do planeta. Mais de 1600 cientistas, entre eles 102 prêmios Nobel, afirmam que: “não fica mais que uma ou duas décadas antes que se perca a única oportunidade de salvar o planeta Terra” (WORLDWATCH INSTITUTE,   1994).
E  a receita certa dada pelos sábios para mudar a cor social  da Terra é:
- Distribuição da renda.
- Desenvolvimento econômico autossustentável.
- Controle demográfico (IBDEN).
Da receita da salvação, os donos do poder somente levaram a sério a terceira orientação, que trata do controle demográfico e que, todavia, foi encarada de uma maneira parcial, na conferência da ONU, no Cairo, em 1994, quando foi votado, por unanimidade, o controle responsável da natalidade. Não obstante, foi rejeitada a relação entre demografia e distribuição de renda, ao reconhecerem que os indígenas são pessoas humanas com dignidade pessoal. Contudo, rejeitaram, pelo voto, o reconhecimento dos indígenas como nação. O contrário seria reconhecer, na prática, a existência de nações autônomas dentro dos Estados Democráticos da América. A democracia, como mais um instrumento de poder de grupos hegemônicos e seus estados, mostrou, assim, sua face dominadora, pouco diferente da racionalidade instrumental e da moral-prática, peculiar aos outros regimes do passado recente (SANTOS,1996).





 [1]  El Estado del Mundo,1995. Anuario económico y geopolítico mundial. Madrid, Akal,1995. pp.518-547.
 [2]  As forças mais esclarecidas das sociedades humanas são as que primeiro alcançam as posições de poder e bem-estar, porém de uma maneira parcial, corporativista e classista.
Cf. Elias. op. cit.

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