sábado, 9 de maio de 2015

O SORRISO DA MÃE

Eu sorrio porque o dia em que nasci senti que minha mãe sorriu-me. Desde aquele longínquo dia jamais deixei de sorrir.
Aquela impressão na tabua lisa do meu cérebro irradiou todos neurônios até o presente momento e será muito difícil dissipar. Na névoa daquele primeiro sorriso senti que estava bem. Muito bem. Soube que meu primeiro encontro com o outro diferente de mim era minha mãe que, além de sorrir, me acalentava com suave pele e o quente alento. Os bicos das mamas da mãe colados nos meus lábios sustentavam a tenra vida pela seiva natural do leito materno. Minha mãe foi, agora eu sei, minha primeira transa com o outro e, por primeira vez experimentei o que era a plena satisfação
  Sorri, esquentei, palpei, chupei o alimento vegetal que verte do outro como a água da nascente da floresta que desliza, rega, rola, vitaliza. Descobri a ligação vital dos instintos naturais com a mãe gente e com a mãe ecológica. A relação prazerosa se torna atividade sensual, comunicativa, nutritiva, aberta aos seres vivos. Assim, inconsciente, ainda, vivi a religião. Religião que evoca a união simbiótica com o cosmos na sua evolução criativa permanente.
Oh força, oh potência da natureza, a quanto se expande, e quão extensos limites tem a satisfação dos instintos!

O clamor popular ensina que a mulher amada se parece ao rosto, corpo e alma da primeira mulher que amei quando a este mundo cheguei.  É provável. Os semelhantes se atraem na paixão do amor, feito sorriso de mãe.

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